Amigos de verdade devem ser guardados na manga, praquelas cartadas fatais que você, ocasionalmente, precise usar. eu tenho os meus. bons e verdadeiros.
Zeca Geralda – apesar do nome, zeca é, na verdade, uma mulher. Vem de josefa, ólha a desgraça. A gente se conheceu no terminal do papicu, numa época em que ninguém tinha carro, há uns seis anos. Era no meio da tarde e eu já voltava da casa do Leão, meio alto de vinho tinto barato e muito pixies no ouvido, ressoando (hoje eu já não curto tanto); ela voltava de um teste pra ser aeromoça da TAM. Eu levava uns exemplares da general e tava folheando aquele número com o bowie na capa. Foi o mote pra ela chegar, perguntando sobre a revista e engatando o papo. ficamos conversando uns 45 minutos, trocamos fone e assim começou. Bom, hoje zeca é aeromoça e a gente só se vê de 15 em 15 dias. O engraçado é que ela tem um polvo grandão, tatuado nas costas, quase perto da bunda. Eu fico imaginando a zeca servindo amendoim nos vôos, com o polvo embaixo do tailleur.
Se pudesse mudar, mudaria: deixaria o cabelo crescer, coisa que não faz porque nunca acerta o volume e porque a cabeleira é crespa.
Laura Leite – foi a primeira mulher que dormiu comigo. Dormiu mesmo, sem sacanagem. Ela é prima do cunhado da minha prima mariana e, numa viagem a guaramiranga, acabamos tendo de dividir a rede: eu e a laura. Ela é meio chatinha, abusada mesmo, mas é louca por trip hop, o que a tornou muito próxima de mim. Assim como eu, não suporta tomar café com leite dentro e tem mania de acordar cedo, antes das sete. A laura tentou levar uns rolos com o jô, mas desistiu, com auto-estima lá embaixo, sabe como é, ariana. Ela garante que está sem fazer sexo há mais de três anos (e vai me matar quando ler isso) e que, muito provavelmente, vai acabar virando lésbica. Trabalha dando aulas de arte para crianças com síndrome de down. Ela não admite, mas odeia aquelas crianças.
Rita Ramos – é uma espécie de irmã-postiça da zeca. Quando esta foi tatuar o polvo nas costas, rita inventou de fazer uma tatoo também: duas cicatrizes sobre as homoplatas, pra dizer que tinham lhe arrancado as asas. Uma forma velada de protesto. Ficou esquisito, e ela mesmo admite. Rita já foi modelo, mas engordou 12 quilos depois de levar um fora certeiro do namorado, o gonçalo, com quem já tinha até marcado uma viagem pro peru. Rita sempre foi feliz, e agora que tá gorda, virou o estereótipo da mulher bem-resolvida, mas com fixação por sexo com homens altos. Mesmo sem gonçalo, viajou pro peru, em 99, e ficou com um hippie cinquentão. Quase que ela não volta. Mas voltou, gorda e dizendo-se finalmente centrada com o universo. O universo, por sinal, cabe no sutiã da rita.
Jô Santarrosa – muito legal o sobrenome dele. Conheço-o desde a sétima série e acho que entendo mais suas neuras do que ele próprio. o jô é candidato a designer industrial e, hoje, trabalha no departamento de arte de uma agência meia-boca. Ao contrário do que todo mundo acha, ele não é gay, apesar de ser bem afeminado e não curtir mulher. Mas não é gay, porque também nunca rolou tesão por outro homem. A vida do jô é juntar grana pra comprar as edições importadas da wallpaper e da surface; o que sobra, enfia numa poupança, porque ele quer fazer o curso de design de produto da saint-martins, em londres. Uma vez, num reveillon em ubajara, a gente bebeu demais da conta e ele me deu um beijo na boca. Na mesma hora, vomitamos. Foi engraçado, mas mesmo assim, evitamos falar sobre o assunto. Eu morro de vergonha e ele também.
Raimundo Gonçalo – é o cara mais louco que eu conheço: usa suíças, só calça sapato bico-fino e tá com planos de montar uma cooperativa de advogados-trainees entre a turma da alfabetização de uma ong do pirambu. Gonçalo explica: quer que a marginália fique tão articulada quanto os caras da comissão de direitos humanos da oab, que ele acha, particularmente, nojentos. Depois que terminou o namoro com a rita (depois eu explico os motivos), entrou numas de ser gay e namorou um tempo com o estácio. Não deu certo e hoje, tá morando junto com a dolores. Na verdade, a única pessoa por quem eu acho que ele se apaixonaria, é por ele próprio.
Estácio de Sá – parece mentira, mas por causa do nome, formou-se em história. Leciona num cursinho da aldeota e morou em lisboa uns tempos, onde trabalhou na restauração do mosteiro dos jerônimos. Namorou um teólogo e tava se preparando pra morar de vez lá, quando o cara inventou de propor uma relação a três: os dois e uma astrônoma iugoslava, chamada zlata. Voltou pro brasil indignado e acabou conhecendo o gonçalo no meio de uma passeata, quando seu chevette pifou pela enésima vez. Apaixonou-se pela porralouquice do gonçalo e só sossegou quando o levou pra cama. Estácio foi o primeiro e único cara com quem foi pra cama. Ficaram juntos uns quatro meses. Novamente, uma mulher jogou areia na relação: dolores, cujo filho, ivens, é aluno de estácio no cursinho. Mundo pequeno.
Dolores do Carmo – namora o gonçalo, 15 anos mais novo (ela tem 42, ele, 27); professora de semiótica na UFC, dolores gasta boa parte da pensão que recebe do ex-marido, um diplomata na frança, fazendo sessões de análise. Dolores é mãe do ivens, estudante de mecatrônica no cefet. Ivens não é amigo de ninguém. É na casa da dolores que a gente janta, vez por outra. Uma sociedade de solteirões, tirando ela, é claro, e gonçalo. Eu faço um macarrão com salsicha divino (por menos que pareça) e a laura é famosa por sua pizza de marisco. O único problema é que a dolores só tem discos de um povo meio indigesto, pelo menos pra mim, tipo belchior, fagner, edinardo. Cearenses arquetípicos dos anos 70. Mas o bom é que dolores não é nem um pouco avessa ao novo e adora discotecar nos cds que a gente leva em noite de jantar.
Zeca Geralda – apesar do nome, zeca é, na verdade, uma mulher. Vem de josefa, ólha a desgraça. A gente se conheceu no terminal do papicu, numa época em que ninguém tinha carro, há uns seis anos. Era no meio da tarde e eu já voltava da casa do Leão, meio alto de vinho tinto barato e muito pixies no ouvido, ressoando (hoje eu já não curto tanto); ela voltava de um teste pra ser aeromoça da TAM. Eu levava uns exemplares da general e tava folheando aquele número com o bowie na capa. Foi o mote pra ela chegar, perguntando sobre a revista e engatando o papo. ficamos conversando uns 45 minutos, trocamos fone e assim começou. Bom, hoje zeca é aeromoça e a gente só se vê de 15 em 15 dias. O engraçado é que ela tem um polvo grandão, tatuado nas costas, quase perto da bunda. Eu fico imaginando a zeca servindo amendoim nos vôos, com o polvo embaixo do tailleur.
Se pudesse mudar, mudaria: deixaria o cabelo crescer, coisa que não faz porque nunca acerta o volume e porque a cabeleira é crespa.
Laura Leite – foi a primeira mulher que dormiu comigo. Dormiu mesmo, sem sacanagem. Ela é prima do cunhado da minha prima mariana e, numa viagem a guaramiranga, acabamos tendo de dividir a rede: eu e a laura. Ela é meio chatinha, abusada mesmo, mas é louca por trip hop, o que a tornou muito próxima de mim. Assim como eu, não suporta tomar café com leite dentro e tem mania de acordar cedo, antes das sete. A laura tentou levar uns rolos com o jô, mas desistiu, com auto-estima lá embaixo, sabe como é, ariana. Ela garante que está sem fazer sexo há mais de três anos (e vai me matar quando ler isso) e que, muito provavelmente, vai acabar virando lésbica. Trabalha dando aulas de arte para crianças com síndrome de down. Ela não admite, mas odeia aquelas crianças.
Rita Ramos – é uma espécie de irmã-postiça da zeca. Quando esta foi tatuar o polvo nas costas, rita inventou de fazer uma tatoo também: duas cicatrizes sobre as homoplatas, pra dizer que tinham lhe arrancado as asas. Uma forma velada de protesto. Ficou esquisito, e ela mesmo admite. Rita já foi modelo, mas engordou 12 quilos depois de levar um fora certeiro do namorado, o gonçalo, com quem já tinha até marcado uma viagem pro peru. Rita sempre foi feliz, e agora que tá gorda, virou o estereótipo da mulher bem-resolvida, mas com fixação por sexo com homens altos. Mesmo sem gonçalo, viajou pro peru, em 99, e ficou com um hippie cinquentão. Quase que ela não volta. Mas voltou, gorda e dizendo-se finalmente centrada com o universo. O universo, por sinal, cabe no sutiã da rita.
Jô Santarrosa – muito legal o sobrenome dele. Conheço-o desde a sétima série e acho que entendo mais suas neuras do que ele próprio. o jô é candidato a designer industrial e, hoje, trabalha no departamento de arte de uma agência meia-boca. Ao contrário do que todo mundo acha, ele não é gay, apesar de ser bem afeminado e não curtir mulher. Mas não é gay, porque também nunca rolou tesão por outro homem. A vida do jô é juntar grana pra comprar as edições importadas da wallpaper e da surface; o que sobra, enfia numa poupança, porque ele quer fazer o curso de design de produto da saint-martins, em londres. Uma vez, num reveillon em ubajara, a gente bebeu demais da conta e ele me deu um beijo na boca. Na mesma hora, vomitamos. Foi engraçado, mas mesmo assim, evitamos falar sobre o assunto. Eu morro de vergonha e ele também.
Raimundo Gonçalo – é o cara mais louco que eu conheço: usa suíças, só calça sapato bico-fino e tá com planos de montar uma cooperativa de advogados-trainees entre a turma da alfabetização de uma ong do pirambu. Gonçalo explica: quer que a marginália fique tão articulada quanto os caras da comissão de direitos humanos da oab, que ele acha, particularmente, nojentos. Depois que terminou o namoro com a rita (depois eu explico os motivos), entrou numas de ser gay e namorou um tempo com o estácio. Não deu certo e hoje, tá morando junto com a dolores. Na verdade, a única pessoa por quem eu acho que ele se apaixonaria, é por ele próprio.
Estácio de Sá – parece mentira, mas por causa do nome, formou-se em história. Leciona num cursinho da aldeota e morou em lisboa uns tempos, onde trabalhou na restauração do mosteiro dos jerônimos. Namorou um teólogo e tava se preparando pra morar de vez lá, quando o cara inventou de propor uma relação a três: os dois e uma astrônoma iugoslava, chamada zlata. Voltou pro brasil indignado e acabou conhecendo o gonçalo no meio de uma passeata, quando seu chevette pifou pela enésima vez. Apaixonou-se pela porralouquice do gonçalo e só sossegou quando o levou pra cama. Estácio foi o primeiro e único cara com quem foi pra cama. Ficaram juntos uns quatro meses. Novamente, uma mulher jogou areia na relação: dolores, cujo filho, ivens, é aluno de estácio no cursinho. Mundo pequeno.
Dolores do Carmo – namora o gonçalo, 15 anos mais novo (ela tem 42, ele, 27); professora de semiótica na UFC, dolores gasta boa parte da pensão que recebe do ex-marido, um diplomata na frança, fazendo sessões de análise. Dolores é mãe do ivens, estudante de mecatrônica no cefet. Ivens não é amigo de ninguém. É na casa da dolores que a gente janta, vez por outra. Uma sociedade de solteirões, tirando ela, é claro, e gonçalo. Eu faço um macarrão com salsicha divino (por menos que pareça) e a laura é famosa por sua pizza de marisco. O único problema é que a dolores só tem discos de um povo meio indigesto, pelo menos pra mim, tipo belchior, fagner, edinardo. Cearenses arquetípicos dos anos 70. Mas o bom é que dolores não é nem um pouco avessa ao novo e adora discotecar nos cds que a gente leva em noite de jantar.
